Ivan Jerônimo

Caligrafia, lettering e artes visuais

Quando alguém na imprensa fala ou escreve sobre algo que você faz, é uma oportunidade de chegar a mais pessoas além dos amigos e parentes. Me formei em Jornalismo e sei que o peso de uma matéria em um veículo com credibilidade é muito maior que o de um anúncio, por exemplo (também sei que selecionar o que publicar no meio de tantos lançamentos não é tarefa fácil).

Para livros, a divulgação em portais e blogues pode ajudar a encontrar leitores. Isso é ainda mais importante se você é o único responsável pela edição. É o caso do meu livro 60 dias dentro de casa – Um diário ilustrado do isolamento, que lancei em setembro no esquema de autopublicação.

As redes sociais podem dar alguma pista se existe público para seu projeto, mas sem um editor para dizer se há leitores para seus manuscritos e desenhos, as menções na imprensa são essenciais.

Nestes cinco meses desde o lançamento, o livro já apareceu em vários portais. Veja quais:

Livro "60 dias dentro de casa" em boa companhia. Foto: Rodrigo Motta

A Banca Curva acaba de receber exemplares do livro 60 dias dentro de casa – Um diário ilustrado do isolamento. É o primeiro ponto de venda fora de Santa Catarina. 

Por fora, parece uma banca normal. Mas em vez de revistas, jornais e refrigerantes, ela abriga livros de artistas, zines, pôsteres, publicações independentes e outros deleites visuais. O proprietário, Rodrigo Motta, trocou todo o mobiliário e transformou o lugar em um espaço agradável para conhecer trabalhos produzidos por artistas, escritores e designers. 

Visitar a banca é uma oportunidade de conhecer a produção independente atual. Foto: Rodrigo Motta

A banca, inaugurada em 2018, fica em São Paulo, no bairro Vila Buarque, na esquina da rua Dr. Cesário Mota Júnior com a General Jardim.

Para leitores de outras cidades, o livro continua disponível online na Livros & Livros, com modalidades de entrega rápida e econômica para o Brasil e exterior. 

Neste ano que passou, figuras mascaradas apareceram aqui no prédio e levaram embora o resultado de quatro meses do meu trabalho.

Foi aí que começou a melhor parte de publicar meu livro 60 dias dentro de casa – Um diário ilustrado do isolamento: os reencontros.

Tive o prazer de entregá-lo pessoalmente a amigos de longa data, professores do colégio, colegas da faculdade, pessoal da natação, das artes e dos agitos da vida – os poucos que moram perto ou preferiram vir até meu bairro.

Porém, a maioria dos exemplares chegou às leitoras e leitores pelo correio. Vão ser lidos em dez Estados e três países. Fez falta uma sessão de autógrafos, mas não dá para querer que um livro produzido no meio de uma pandemia tenha um lançamento normal. Ao menos, tentei caprichar nas dedicatórias e na embalagem. 

Muitos compradores me escreveram mensagens com elogios e incentivos. Estão todas guardadas (e os que não gostaram pelo jeito não se manifestaram). 

Mais: a minha livraria preferida de Florianópolis, a Livros & Livros, em um gesto de apoio a autores e editoras independentes, começou a vender o título – e com destaque. Me contaram que um benfeitor misterioso passou um dia na loja e levou seis exemplares. 

A todas e todos, quer tenham recebido o livro pelo correio, quer em mãos, meu sincero obrigado. Com tantos títulos para se ler hoje em dia, é um privilégio a publicação de um anônimo iniciante ter recebido um par de horas da atenção de tanta gente. 

Meu livro 60 dias dentro de casa - Um diário ilustrado do isolamento acaba de sair. A edição traz os desenhos e textos que fiz entre março e maio deste ano. São 84 páginas com mais de quarenta obras, várias delas coloridas.

Onde comprar:

Na minha cabeça, haveria uma noite de autógrafos em um bar, muito provavelmente no Tralharia, cercado dos amigos que frequentam aquela parte do Centro de Florianópolis. Mas já completamos cinco meses com o vírus circulando, o Tralharia teve de fechar e, por isso, o livro vai chegar aos leitores sem evento presencial (mas vai rolar live).

Mostrando o livro na Hora Feliz Urban Sketchers Brasil

O caderno como registro

O surto mandou para o beleléu duas das minhas rotinas de desenho: as sessões com modelo vivo e os encontros do Urban Sketchers Florianópolis. Sem poder ir para a rua, comecei a desenhar pela casa, documentando coisas como a cozinha, que passou a ser usada todo dia, e o expediente no home office improvisado, realidade comum a muita gente nos últimos meses. 

Não é de hoje que tenho vontade de publicar meus desenhos. O isolamento, além de ter me dado mais tempo, virou o tema de fundo que amarra a produção dessa época que será lembrada por muitos anos.

Vista da sacada em um sábado à tarde virou a capa do livro

O tempo passa (com ou sem pandemia) 

Uma hora, vamos lembrar desse surto de Covid-19 como algo do passado. Enquanto isso, é preciso cuidado para não afundar em más notícias. Minha solução foi desenhar, atividade que tem o benefício duplo de fazer a atenção se concentrar numa única coisa e de fixar a memória. 

Confesso que, no início, fiquei receoso de bancar sozinho a impressão e todo o trabalho de criar o livro, mas resolvi que já era hora de investir em um projeto pessoal. Mesmo quem trabalha na chamada “indústria criativa” sabe que muitas vezes a criatividade que fala mais alto é a do chefe ou do cliente. Por isso, é importante criar espaços onde você faz o que bem entende. 

Múltiplas fontes 

Nos cinco ou seis cadernos que mantenho, contei mais de quarenta obras desse período, feitas com pastel seco, caneta tinteiro, tira-linhas, aquarela, técnicas digitais, entre outros. Montei uma tabela com dimensões, materiais e títulos, e anotei também as curtidas nas redes sociais (sem editor, isso me ajudaria caso precisasse deixar alguma de fora). 

Desenhos feitos na pandemia estão espalhados por vários sketchbooks

Vários textos que acompanham os desenhos já estavam publicados como legendas nos posts. Outros, editei ou escrevi do zero. 

Investimento

 Sem sangue frio para uma campanha de financiamento coletivo, nem paciência de esperar por editais, escolhi a autopublicação. Hoje, existem gráficas especializadas em tiragens pequenas, com qualidade comparável ao ofsete. 

Aproveitei ainda que sei tratar imagens e já fiz design de publicações, dois serviços que valorizam a edição (e que comeriam boa parte do orçamento se eu contratasse outros profissionais). 

O processo

Toda publicação deve ter um projeto, aconselha a experiência e as aulas na faculdade de Jornalismo. Planejar as páginas foi crucial para prever o tamanho do livro e estabelecer a sequência dos desenhos. Foi aí que me dei conta de que poderia organizá-los por temas, em vez de ordem cronológica. 

Sequência das páginas evita surpresas na diagramação

Na hora de tratar as imagens é que se vê como a ilustração digital facilita a vida até na edição: não é preciso escanear nem corrigir cores, brilho ou contraste, etapas inescapáveis para os originais em papel

O projeto gráfico e a diagramação correram em paralelo. Os títulos são em Futura Medium e o corpo do texto em ET Bembo. Os desenhos vão até o limite da folha (“sangrados”, no jargão das artes gráficas) para aproveitar todo o espaço. No design das páginas, recorri ao Elementos do estilo tipográfico, obra de referência de Robert Bringhurst. 

Planejamento da estrutura do livro inclui proporção da página, margens e quantidade de caracteres por linha

Imprimir uma tiragem por demanda é igual em qualquer gráfica convencional. Você envia os arquivos, eles lhe mandam uma prova e, se estiver tudo OK, imprimem o livro. Sempre fico ansioso antes de enviar algo para a gráfica, mas a qualidade da prova física me surpreendeu. É preciso um olho especializado para diferenciar do processo ofsete. Como esse primeiro lote se esgotou em menos de cinco dias, tomei coragem para encarar uma tiragem bem maior em uma gráfica convencional.

Vai ter sequência?

Por causa do título 60 dias dentro de casa, volta e meia alguém pergunta, ironicamente, quando sai o segundo volume, já que faz tempo que passamos de 120 dias. O trabalho do livro, entretanto, deixou a prática do desenho em segundo plano. Mas continuo produzindo e espero, embora sem muita esperança, que a pandemia acabe antes que eu acumule material para outro volume. 

Serviço

60 dias dentro de casa - Um diário Ilustrado do Isolamento
Ivan Jerônimo
84 páginas
17 ⨉ 24 cm
Edição do autor
Livro impressoLivros & Livros (online e na loja do Centro de Eventos da UFSC, em Florianópolis)
E-bookAmazon
Veja amostra

Nesta quarta-feira (29/7), participo da Hora Feliz USk Brasil, a série de conversas promovida pelo Urban Sketchers Brasil

Urban Sketchers (de onde vem a abreviação “USk”) é um movimento mundial que organiza encontros de desenho de observação em mais de 300 cidades no mundo inteiro. 

O nome é “Hora feliz” mas geralmente os participantes se empolgam e estendem o bate-papo por quase o dobro do tempo. Toda semana, o anfitrião Ronaldo Kurita, coordenador tanto da seção brasileira do USk como da paulistana, convida alguém para falar sobre o ato de desenhar na rua, explicar técnicas e responder às perguntas do público. 

Além de passar sobre esses temas, vou contar sobre o Urban Sketchers Florianópolis, do qual sou um dos organizadores. No fim, explico o que é um tira-linhas e como uso esse instrumento que ficou popular na caligrafia para retratar a paisagem urbana. 

A live é transmitida às 18h30 desta quarta pelo Instagram da GG Brasil. A editora apoia o movimento e tem um catálogo com livros importantes de desenho, caligrafia, design e afins

Bate-papo na Feira Literária da Escola Autonomia com Rafael Bokor (embaixo) e Ivan Jerônimo, mediado por Sarah Mendes

Terça-feira passada, participei da Feira Literária da Escola Autonomia. O tema da conversa foi "Abra sua janela" e foi mediada pela professora Sarah Mendes, de geografia, a quem agradeço o convite.

De um lado, Rafael Bokor, que registra o patrimônio do Rio de Janeiro em fotografias para o projeto Rio - Casas & Prédios Antigos. Do outro, eu com minha atividade de desenho de observação na rua, muitas vezes com o pessoal do Urban Sketchers Florianópolis.

Falamos sobre janelas, ou seja, as vistas que cada um de nós tem do mundo, e da importância de registrar esse pedaço da sua realidade. Revelamos também como começamos nossas atividades e contamos alguns casos curiosos.

Meu livro 60 dias dentro de casa - Um diário ilustrado do isolamento, que vai sair em breve, também entrou na conversa. Afinal, traz desenhos que retratam a vista do que se tornou minha janela particular neste período: os ambientes e objetos de casa.

Aproveitei que uma hora a conversa foi para o assunto do Urban Sketchers, movimento do qual sou um dos organizadores, e convidei os espectadores para participarem (os encontros são livres e abertos).

O bate-papo foi por videochamada (afinal, ainda estamos em plena pandemia) e está disponível no YouTube da escola.

Duas opções de capa e três tamanhos diferentes

O pessoal da Taccbook acaba de lançar uma linha de cadernetas com dois trabalhos meus de caligrafia na capa (um no estilo gótico, o outro em estilo livre). No site, você monta sua própria combinação de tamanho, tipo de papel e de pauta.

São três tamanhos:

  • 9 × 14 cm
  • 14 × 21 cm
  • 21 × 32 cm

Todos têm bolsa interna. Os menores (9 x 14 cm e 14 x 21 cm) contam com fita marca-páginas e elástico de fechamento e podem ser configurados com pautas pontilhadas (pontadas), ideal para o pessoal de bullet journal e afins.

Já o maior (21 × 32 cm) é especialmente tentador como sketchbook artístico porque vem em papel Filiart Renaud 200 g/m² com 30% algodão. Testei assim que o recebi e funciona muito bem com aquarela. As folhas picotadas permitem destacar facilmente uma obra para quando você quiser emoldurá-la ou presentear alguém.

Quando chegaram minhas amostras, fiquei impressionado com o acabamento. Vou ter de aumentar a produção para preencher tantas páginas.

Para comprá-las, vá ao site da Taccbook:

No começo da quarentena, você sentiu um silêncio meio pesado no bairro? Uma calmaria que é quase o inverso das tardes de domingo, quando o normal é todo mundo sair de casa?

No isolamento, as pessoas estavam trancadas em seus apartamentos, mas não se ouvia nada. Construções paradas e poucos carros na rua. Até os cachorros pararam de latir.

Foi essa a pauta que a jornalista Míriam Santini de Abreu explorou em seu artigo na Folha da Cidade para marcar o Dia do Silêncio. 

Virei personagem e um desenho meu ilustra a matéria. Retrata a vista da janela para o Jardim Guarani, no Córrego Grande. Fiz o registro em uma daquelas tardes ensolaradas de sábado que terminam cedo.

Entrevista para o site comemorativo da Pentel Stylo (tem versão em inglês)

Nunca um carrinho de bebidas da praia da Cachoeira do Bom Jesus chegou tão longe.

Para os 40 anos da caneta Pentel Stylo, a fabricante japonesa abriu um site comemorativo onde desenhistas, médicos, calígrafos e funcionários de escritório, entre outros, contam como usam o produto.

Me convidaram por causa dos desenhos em que uso a caneta. Costumo levá-la junto com um caderno para ter o que fazer enquanto espero em consultórios ou restaurantes. Foi assim que saíram os dois trabalhos que ilustram a entrevista.

O primeiro, do carrinho de bebidas, é deste verão. Ele parou na frente de onde eu estava sentado, na praia da Cachoeira do Bom Jesus, em Florianópolis (SC). “Daria um bom desenho”, penso, ao ver as frutas penduradas, copos, liquidificadores, facas e outros utensílios. Achei que não iria dar tempo, mas resolvo arriscar quando vejo que começavam a preparar as batidas de um banhista.

O outro saiu enquanto esperava meu pedido ficar pronto no Sushi Vibe, restaurante do bairro Córrego Grande onde você aprecia a culinária japonesa escutando dub jamaicano. No boteco vizinho, vejo sempre a mesma picape que está desenhada, mesmo de dia. Se não for do dono, é de um frequentador muito fiel.

A caneta foi uma boa descoberta. O traço lembra o de uma caneta tinteiro. E é baratinha.

Entrevista disponível em inglêsjaponês.

A cada três semanas, tenho um compromisso: sair pra desenhar nos encontros do Urban Sketchers Florianópolis.

O movimento chegou na cidade em 2016 e já soma quase cinquenta sessões de desenho. Os locais são tão variados quanto a Praia do Forte, a praça Getúlio Vargas e a travessa Ratcliff. Fazendo as contas, deve dar quase mil trabalhos.

A exposição Ilha em Linhas - Os desenhos do Urban Sketchers Florianópolis traz um apanhado de 56 obras feitas nesses três anos e meio. Está imperdível, e digo isso não só porque sou um dos organizadores. São desenhos a lápis, aquarela e nanquim que retratam cenários da cidade, nem sempre aqueles que você vai ver em cartões postais. Cada um com seu estilo individual. 

Deu repercussão: saímos em quase dez veículos, incluindo matéria na TV.

Participantes na abertura da exposição dia 5/11. Foto: Ronaldo Effting

A exposição é resultado do empenho dos quatro administradores do Urban Sketchers Florianópolis e dos 29 expositores. Contamos também com o apoio da Fundação Catarinense de Cultura – FCC e do Governo do Estado. À Aline Zanella Bordignon, funcionária da FCC que faleceu mês passado, devemos o incentivo e a ideia de fazer um encontro no próprio CIC.

Visite

Ilha em Linhas - Os desenhos do Urban Sketchers Florianópolis
6 a 27 de novembro de 2019, de terça a domingo, das 10 às 21h
Abertura: 5 de novembro (terça), às 19h
Espaço das Oficinas · Centro Integrado de Cultura – CIC
Av. Governador Irineu Bornhausen, 5.600, Agronômica
Entrada gratuita · Classificação indicativa livre
Apoio: Oficinas de Arte, Fundação Catarinense de Cultura e Governo de Santa Catarina

Expositores

  • Ana Tuyama 
  • Antônia Ribeiro – Tunoqui
  • Audrey Laus

  • Camila Tuyama 
  • Carol Grilo

  • Daniela Almeida Moreira
  • 
Di Batista

  • Doug Menegazzi

  • Gui Ruchaud
  • Isa Simões
  • IsoDozol
  • 
Ivan Jerônimo
  • 
Jaqueline Silva
  • 
Jony Coelho
  • 
José Antônio Bellini
  • 
Laura Tuyama
  • 
Lucas Polidoro
  • 
Marcelo Schlee
  • Maria Esmênia
  • 
Michelli Zimmermann Souza
  • Nathália Hiendicke
  • 
Osmar Yang
  • 
Siení Cordeiro Campos
  • Sônia Tuyama
  • Suely Lewenthal Carrião
  • Valentina Kauling Laus
  • 
Vinícius Luge Oliveira
  • Walkiria Maria Duwe Mülbert
  • 
Zulma Borges 
Capa da primeira edição do fanzine Gusp. Fiz o desenho no mesmo local onde vai ser o lançamento

Já falei por aí que não tem como desenhar na rua sem conversar com alguém. Tem aqueles que encostam para puxar papo. Outras vezes, é você quem acaba escutando assuntos alheios sem querer. O que não é ruim: falando com moradores se descobrem coisas interessantes do lugar. Sem contar os diálogos aleatórios que acabam se tornando parte da lembrança de desenhar in loco.

É início de junho quando cineasta Marko Martinz me pergunta por mensagem se eu toparia fazer um desenho para um fanzine que ele e a documentarista Leticia Marques iriam lançar. A ideia é cobrir os arredores da esquina da rua Victor Meirelles com a Nunes Machado, no centro de Florianópolis. Como pareço ter atração por esse tipo de empreitada (que não dá dinheiro mas dá liberdade), aceitei.

O zine Gusp, que sai nesta quarta (17/7), aborda os personagens que circulam pelo lugar e os projetos culturais que resultam dessas interações. Para esta edição, a dupla convidou os artistas Pati Peccin e Julius Schadeck, os escritores Demétrio Panarotto e Fábio Brüggemann e a cineasta Cíntia Domit Bittar. O lançamento é no Picnic Food, hamburgueria vegana ao lado da esquina. 

 No meio do agito 

Marquei com ele e com Leticia Marques no Picnic Food em uma quinta-feira à noite. Dei uma volta pela esquina procurando o ângulo de onde desenhar mas os carros bloqueavam a visão. Decidi fazer da mesa onde estávamos sentados. O fácil é o certo, já dizia a música dos Titãs. 

Desenhar no Centro, à noite, é atividade social. Vídeo: Marko Martinz

Não lembro de ter desenhado com tanta coisa acontecendo em volta. Conversei, acompanhei pelo menos dois bate-papos que estavam rolando ao mesmo tempo, fui filmado, fotografado e ouvi os depoimentos que Martinz gravava de um cara sentado ao meu lado. Tudo isso enquanto fazia os traços com caneta tinteiro e decidia se deveria ou não jogar pincel preto nas árvores e no céu. A obra acabou indo para a capa.

O retorno da tesoura e cola 

Confesso que achei curiosa a iniciativa do fanzine. Para mim, esse tipo de publicação tinha parado nos anos 90, substituído por blogs e revistas com jeito profissional, resultado de softwares cada vez mais fáceis de usar. 

A volta da estética DIY é justamente uma reação ao minimalismo e às fotos super-tratadas de parte das publicações independentes, principalmente daquelas que abordam a cultura. Assim, armados de cola, tesoura, xerox e criatividade, Marques e Martinz lançam a primeira edição do Gusp. E já planejam o segundo número. 

Serviço

GUSP - Festa de lançamento da primeira edição do fanzine
17 de julho de 2019, quarta-feira, às 19h
Picnic Food FLN
Rua Victor Meirelles 138, Florianópolis, SC

Autor conta história de doze manuscritos antigos, cobrindo período de mil anos

A caprichada versão brasileira do livro Manuscritos Notáveis, do inglês Christopher de Hamel, é para ser lida em cima da mesa. Suas quase 700 páginas dão ao volume de capa dura 4,5 cm de espessura e mais de um quilo.

Isso, porém, não é nada perto da presença física dos objetos dos quais o autor trata. Cada um dos doze capítulos é dedicado a um manuscrito que Hamel selecionou por sua importância histórica, raridade ou beleza. O maior deles mede meio metro de altura, 30 cm de espessura e 34 kg. Mesmo os menores estão longe de ser de bolso pelos nossos padrões atuais. Afinal, couro é mais grosso e pesa mais que papel.

O autor queria que o título fosse "entrevista com manuscritos" e logo se percebe por quê. À maneira de perfis jornalísticos, cada capítulo abre com a descrição de como foi arranjada a "entrevista", da permissão de manusear o volume (manuscritos raros costumam ter acesso restrito) à descrição das bibliotecas e museus na Europa e Estados Unidos onde ele repousa. Embora alguns deles estejam digitalizados e com acesso fácil nos sites das instituições, a intenção de Hamel foi oferecer a sensação de manuseá-los e o impacto da caligrafia e das ilustrações, chamadas de iluminuras.

Os estilos de caligrafia 

Os doze manuscritos reunidos no livro cobrem um milênio de história, começando no século 6. Não dá para documentar a evolução da caligrafia só pela dúzia de exemplares reunidos por Hamel, mas eles oferecem bons exemplos da diversidade de estilos em épocas e regiões diferentes. É uma perspectiva diferente dos manuais de caligrafia, que classificam os tipos de letras por períodos bem delimitados. Em se tratando de escrita à mão, nem tudo cai tão facilmente em categorias. A quem se interessa por caligrafia, sugiro acompanhar a leitura com uma obra de referência (a minha foi A Arte da Caligrafia, de David Harris, já esgotada). 

Caligrafia uncial no Evangelho de Santo Agostinho. Na época, não se separavam as palavras

Já no primeiro manuscrito, dos Evangelhos de Santo Agostinho (séc. 6), temos um exemplo de Uncial, sem os espaços entre as palavras que só surgiriam séculos depois. Ficamos sabendo que esse estilo, de letras grandes, não era bem visto por São Jerônimo, tradutor do texto reproduzido no evangelho, por desperdiçar espaço. 

Na Arateia de Lenden (séc.9), uma cópia de um tratado de astronomia ainda mais antigo, os escribas tentaram reproduzir o estilo de caligrafia original, em maiúsculas rústicas. Curiosamente, alguém se deu o trabalho de reescrever todos os textos nas margens em outra letra – a caligrafia gótica, mais legível na época. O leitor de hoje, porém, provavelmente acharia a versão original mais fácil de ler. Há manuscritos cuja caligrafia não se encontra facilmente nos manuais. É o caso das minúsculas visigóticas usada na Espanha e Portugal, derivada da cursiva romana (no manuscrito Beato de Morgan, séc. 10).

Página do Beato de Morgan com a rara minúscula visigótica. O estilo de iluminura tem similaridade com arte etíope

Linha de produção 

A ideia romântica de um escriba solitário, enclausurado num mosteiro, cai por terra logo no início. Embora obras mais antigas fossem realmente produzidas em locais religiosos, há livros feitos em oficinas especializadas, com equipes de escribas e iluminadores trabalhando em separado, muitas vezes com encomendas para diversos mosteiros. Sabe-se disso hoje comparando a caligrafia e, no caso das iluminuras, o traço. 

O leitor também percebe o trabalho colossal que era produzir um manuscrito, o que dá uma ideia de quanto deviam ser valiosos na época. A pele de um bezerro rende apenas duas folhas de pergaminho. Para o colossal Codex Amiatinus, do século 8, o autor calcula que foram necessários 515 animais. 

Cada livro, uma aventura 

Dificilmente as obras ficaram todos esses séculos no mesmo lugar. Venda, roubo, contrabando, herança e transferências foram os meios pelos quais eles trocaram de mãos. O Semideus de Visconti, por exemplo, foi surrupiado da França por um embaixador russo durante a Revolução Francesa. Acreditava-se que As Horas de Joana de Navarra havia sido tomado da família Rothschild pelos nazistas, mas o próprio autor descobriu documentos comprovando que os proprietários foram ressarcidos, o que fez a França pagar uma quantia à Alemanha para que o volume continuasse na biblioteca nacional. 

Perdas 

Iluminura incrivelmente detalhada do Livro de Kells, tesouro nacional da Irlanda

As idas e vindas das obras também causaram cicatrizes. É comum especialistas verificarem páginas suprimidas, muitas vezes para revenda a antiquários, embora também ocorram perdas em reencadernacões. Há casos, como o do Codex Amiatinus, em que foram recuperadas páginas soltas de uma outra versão do mesmo manuscrito. Há folhas que hoje podem estar decorando a parede de alguém que ignora seu valor. A Carmina Burana tem um volume separado, a Fragmenta Burana, só para páginas consideradas pertencentes ao livro original. 

Por questões práticas, um manuscrito muito grande pode ser dividido, como é o caso do Livro de Kells (séc. 8), tesouro irlandês que foi separado ainda no século 20 em quatro volumes, correspondentes a um evangelho cada. Assim, poderiam ser exibidos simultaneamente, já que os visitantes são proibidos de tocá-los.  

Em sentido horário a partir do topo, à esquerda: primeira versão de 2004, remodelagem de 2008, o site atual e o breve período de uso do Known

Em 2004, a primeira versão do meu site foi ao ar com três categorias: fotografia, pintura e ilustração, que eram meus interesses na época. Eram tempos em que eu costumava pegar encomendas de ilustrações, pintava telas em acrílico e de vez em quando saía para fotografar. Quatro anos mais tarde, fiz uma reforma e incluí trabalhos de design gráfico.

Lembro que investi um bom tempo separando os trabalhos em galerias. Como na época existiam poucos sistemas prontos, chamei meu primo programador para criar um publicador de galerias e artigos. Fiz o design, ele implementou, registramos o domínio ivanjeronimo.com.br na Unetvale e o troço saiu.

Em 2004, criar sites exigia equipamentos avançados

Avançando quinze anos para os dias de hoje, percebo algumas mudanças:

  • Desde 2011 trabalho na Fundação Certi como desenvolvedor de interfaces, uma das razões que me fez  suspender encomendas de design gráfico (exceto as que faço para mim, afinal, todo mundo precisa de um designer uma hora ou outra).
  • A fotografia se tornou ao mesmo tempo mais descompromissada e mais prática. Descompromissada porque o smartphone está sempre no bolso. E mais prática porque uso a parafernália de fotografia só para documentar meus próprios trabalhos ou registrar o que considero importante. Quem sabe um dia volto aos retratos e fotos urbanas, meus temas mais comuns. 
  • Interrompi minha "altamente lucrativa" carreira de ilustrador ocasional e hoje rabisco sem ganhar nada, em sessões de modelo vivo, nos encontros do Urban Sketchers Florianópolis, nos cadernos e no tablet
  • Parei também com a pintura, mas já prometi a mim mesmo que volto. 
  • Em compensação, comecei a praticar caligrafia regularmente e com um progresso que eu não achava que seria tão rápido.

Faz um tempo, me questionei se ainda é importante ter um site próprio e cheguei à conclusão que sim, por uma razão simples: independência. Não recomendo ficar à mercê do funcionamento de qualquer rede social para ter seu trabalho exposto. Uma hora a conta chega, geralmente na forma de uma oferta tipo “pague ou ninguém vê o que você publica”. 

Hoje uso um sistema feito para fotógrafos, o Koken, que tem a vantagem de ser focado em imagens. Por outro lado, está há quase dois anos sem receber atualização, o que me preocupa um pouco. Também testei por um tempo o Known, que lembra o Tumblr por mostrar textos e imagens em um feed único, mas faltavam alguns recursos que eu precisava.

E se a produção tomar outro rumo, basta reformular as galerias ou, em caso mais dramático, recomeçar com uma folha em branco. 

Título de Martina Flor é um dos mais completos sobre lettering disponíveis no Brasil

Durante cinco anos, A Arte da Caligrafia, de David Harris, reinou sozinho nas prateleiras das livrarias como única referência sobre escrever e desenhar letras. A partir de 2014, as editoras brasileiras se tocaram que caligrafia e lettering estavam em alta e lançaram outros livros. Os Segredos de Ouro do Lettering, da argentina residente em Berlim Martina Flor, é o mais completo desta nova leva.

A obra é destinada ao desenho de letras para design gráfico, mais especificamente para ilustração editorial e embalagens. A autora, porém, ensina o mais importante: o processo. Ela não dá modelos para o leitor copiar, como é comum a muitos livros sobre o assunto. Pelo contrário, indica onde buscar inspiração e detalha a estrutura das letras, mostrando as possíveis variações (altura, largura, contraste, ornamentos etc). "Dentro dos limites das formas básicas que podemos reconhecer como letras, as possibilidade de desenhá-las são infinitas", explica.

A partir das formas básicas das letras, autora explora as variações

Uma abordagem interessante é a técnica do papel manteiga. A artista faz várias versões, sobrepondo uma nova folha de papel manteiga sobre a versão anterior, copiando e corrigindo o que ela achar necessário.

A composição é um aspecto que muitas vezes define um bom trabalho, mas nem sempre é abordada por outros autores. Aqui, Martina sugere começar com miniaturas (desenhos pequenos) para se concentrar na distribuição da arte na página. Após definir esse layout inicial, trabalha com alinhamento e destaque de palavras, evitando composições monótonas.

Flor expõe o processo da própria capa do livro como exemplo

Lettering, caligrafia e design de tipos são três disciplinas distintas, mas com intersecções. Assim, trecho importante é reservado para os princípios da tipografia aplicados ao lettering: formas das letras, espaçamento, compensação óptica, entre outros. Como quem nos parece querer dizer que conhecer nomes é dominar uma disciplina, a autora disseca as partes de cada letra, como um manual de anatomia faz com o corpo humano. 

Embora não seja o tema do livro, a caligrafia ganhou capítulo próprio, suficiente para Flor transmitir os fundamentos e principais materiais, além de sugerir exercícios para dominar os estilos mais comuns. Aprender a manusear uma pena ou um pincel pode enriquecer um projeto de lettering ou permitir desenhar letras manuscritas com conhecimento de como a estrutura deriva do instrumento e da sua inclinação.

Capítulo sobre caligrafia traz materiais, técnicas e os principais tipos de letras

A vetorização é o último passo – ela detalha o processo de arte-finalizar um lettering no computador, transformando a arte em curvas manipuladas através de um software. A autora usa o Adobe Illustrator, mas qualquer outro software vetorial dá conta do recado (Affinity Designer, Corel Draw, Inkscape, Vectornator etc). Além da arte final (o processo de realmente redesenhar as letras usando vetores), ela dá exemplos para escolher cores e adicionar sombras e texturas. 

Embora não pretenda ser um manual de software, o capítulo de vetorização da arte é suficiente para aprender sobre o procedimento

Dentro do espírito de uma obra para quem quer transformar as letras em profissão, o capítulo final é dedicado ao mercado: como promover seu trabalho, passar orçamentos e lidar com clientes. 


Os Segredos de Ouro do Lettering - Design de letreiros, do esboço à arte final
Martina Flor
168 páginas, 21 x 24 cm
Editora Gustavo Gili, 2018

Painel em andamento para o Fulano Bar, no bairro Estreito. Na oficina Lettering para Interiores, o participante vai aprender como criar e executar sua arte

Os painéis tipo quadro-negro estão estão em todo lugar: cafés, cervejarias, festas de casamento e até na parede da sala. Passam a mensagem e ainda dão um ar meio vintage pro negócio.

Para muitos, porém, é inviável contratar um letrista sempre que entra um item no cardápio ou a cada novo evento. A oficina Lettering para Interiores, que vou dar no próximo sábado (19/1), capacita o participante a produzir seu próprio painel.

O público-alvo é:

  • Profissionais de design de interiores 
  • Quem é proprietário ou trabalha em estabelecimentos de serviços ou comércio 
  • Produtores de eventos
  • Qualquer pessoa interessada em se divertir com letras (ou decorar a parede da sala) 

E a demanda vem crescendo. O primeiro painel que fiz, para o Tratto Restaurante (abaixo), tem quase 80 mil visualizações no YouTube. Desde então, todo mês recebo propostas de trabalho, mesmo tendo deixado de buscar novos clientes há alguns anos. 

 

Painéis nesse estilo não são difíceis de fazer, mas dominar a anatomia das letras, as técnicas e os materiais melhora o resultado, além de economizar tempo. Também vou dar indicações de ferramentas digitais que agilizam o processo. 

Detalhes e inscrições no site da Faferia Oficinas

Oficina Lettering para Interiores
Sábado, 19 janeiro de 2019, das 14h às 19h
Faferia Oficinas
Rua Fernando Machado, 261 - Centro, Florianópolis
Fone.: (48) 3065 6534

Retrospectiva é aquele tipo de exercício em que você relembra o que achou mais importantes mas quem lê, discorda. Mesmo assim, escrevo fatos interessantes que ocorreram em 2018, ao menos no campo da caligrafia e afins (já que na política e economia, convém poupar o fígado).

Mais oficinas

Participantes da sexta edição da oficina Caligrafia Livre, em fevereiro

Foram duas edições da oficina Caligrafia Livre na Faferia em 2018, ano em que dei menos cursos para me dedicar a outros projetos. Porém, sempre fico surpreso ao ver como um plano de aula se adapta aos participantes. É uma oficina em que os inscritos aprendem as bases dos três estilos que considero mais relevantes, além de testar instrumentos e ver dicas de composição. Se quiser se aventurar em meio a penas, pincéis e nanquim, em fevereiro tem nova edição.

Caligrafia na academia

Que tal trinta participantes em vez de dez? Foto: Mary Meürer

Tive a felicidade de receber um convite de Mary Meürer, professora do curso de Design da UFSC, para dar uma edição da oficina Caligrafia Livre aos estudantes da sua disciplina de tipografia. Confesso que fiquei meio nervoso. De uma só tacada, tinha o triplo de alunos e quase metade do tempo das oficinas da Faferia. A aula foi em setembro, na mesma universidade em que me formei há vinte anos.

Deixei os materiais tradicionais de lado e vimos que, mesmo com um instrumento improvisado como o hashi (palitinho japonês) chegamos a resultados criativos. Para isso, escrevi cinco modelos de letras e fui dando as dicas individualmente, tentando não interferir no estilo de cada um. No fim, o pessoal experimentou o pincel oriental, a pena quadrada e o tira-linhas (incluindo os do Dreaming Dogs). E ainda deu tempo de ver variações de composição, que eu sempre digo que fazem diferença. 

Encontros de letras

Pati Peccin apresenta o livro Arquipélago (em coautoria com Demétrio Panarotto) na 11ª edição do Café com Serifa

Em 2018 chegamos à 12ª edição do Café com Serifa, encontro de caligrafia, lettering e type design que organizo no Tralharia, no Centro de Florianópolis. No ano, foram quatro edições desse evento que nasceu para ser só um happy hour de quem trabalha com letras, mas que também virou um espaço para apresentar projetos. Tivemos caligrafia árabe, novas tipografias, experiências na Coreia do Sul, ilustração e fechamos o ano com nosso tradicional amigo-secreto de cartões postais. 

Homenagem merecida

Impressos e clichês produzidos da editora Noa Noa, de Cleber Teixeira

Às vezes precisa uma exposição para transmitir a ideia de uma obra – um conjunto de artefatos feitos com o mesmo propósito e atenção, coerente no tempo. A mostra Editora Noa Noa e Cleber Teixeira trouxe as publicações em tipografia e gravura do editor e poeta, falecido em 2013, complementada com as máquinas e instrumentos necessários para imprimi-las – impressoras tipográficas, caixas de tipos e matrizes. 

Analisando as obras, fica claro o cuidado na produção dos livros. Os autores e as cartas expostas revelam a quantidade de artistas, escritores e tradutores que publicou, gente de importância nacional. Mostram também como a casa dele foi espaço de conversas onde provavelmente começaram muitos projetos. A exposição ficou de setembro a outubro no Museu Histórico de Santa Catarina, no Palácio Cruz e Sousa. O documentário Cleber e a Máquina é uma boa introdução e pode ser visto online. Existe ainda um projeto para transformar a biblioteca de Teixeira em espaço público

Que venham mais livros 

Dois livros de caligrafia editados em 2018 (topo) se somaram à onda recente de títulos sobre o assunto

Demorou, mas as editoras brasileiras acordaram para as letras feitas à mão. Para quem só tinha o livro A Arte da Caligrafia, de David Harris, lançado em 2009 e já esgotado, foi bom ver a biblioteca crescer com os últimos lançamentos: 

Tenho alguns desses livros e pretendo publicar resenha dos mais recentes. 

Exposição de caligrafia Yi

Trabalho em exposição na UFSC

Em julho, uma exposição no meio de um congresso de antropologia na UFSC mostrava os costumes e as artes da etnia Yi, da China. Entre roupas, utensílios e painéis, havia um conjunto de obras de caligrafia, numa escrita que eu desconhecia. Mesmo procurando no Google, não achei muita informação sobre o estilo. Por isso, tirei fotos e escrevi um post

Página de Sandro Clemes onde saiu a obra. Sua coluna na revista Versar é um dos poucos espaços de crítica de artes no jornalismo impresso aqui em Santa Catarina. Foto: Sandro Clemes

Semana passada, tive uma obra de caligrafia publicada na coluna que o designer e produtor cultural Sandro Clemes mantém na revista Versar.

No texto, ele identifica que artistas visuais estão usando cada vez mais letras e palavras em seus trabalhos. O recurso adiciona novos significados ou entra como elemento de composição. "Tanto em obras de denúncia, nas crônicas ou em declarações de amor, em verso ou prosa, reproduzidas com rigor ou em formas abstratas, as palavras, estejamos certos, são imagens", escreve Clemes.

O trabalho que ilustra a nota “Inscrituras do Gesto” é parte de uma série em que experimentei com forma e composição, desmontando as palavras ou dispondo-as sem preocupação com legibilidade. Na obra, cujo original está com o colunista, escrevi fragmentos de letras dispostos em uma forma triangular usando tinta nanquim e tira-linhas. Me interessava mais a qualidade gestual dos traços. 

Trabalho sobreposto a desenho em linhas douradas (detalhe)

Exposições de caligrafia são raras aqui em Florianópolis. Porém, uma mostra durante o 18° Congresso Mundial da União Internacional de Antropologia e Ciências Etnológicas (IUAES), de 16 a 20/7, trouxe trabalhos difíceis de se ver em outra oportunidade.

Outra visão do mesmo trabalho: caligrafia Yi juntamente com ideogramas chineses (caracteres menores nas laterais)

Expostos no hall do centro de eventos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), os cinco originais de caligrafia foram feitos na escrita Yi, usada pela etnia de mesmo nome que vive em regiões montanhosas da China. Tanto escrita como o idioma são diferentes das variantes principais do chinês, como o mandarim e o cantonês. Enquanto os caracteres chineses são ideogramas, o sistema Yi é um silabário. 

Sobreposição de caracteres Yi (pretos) e chineses (em nanquim diluído)

A técnica, com pincel e nanquim, parece similar à da caligrafia oriental. Quase todos os trabalhos têm texto em ideogramas chineses ao lado do texto principal na escrita Yi. Em um deles, o calígrafo parece ter sobreposto caracteres dos dois tipos. O conjunto de obras foi feito por ao menos três artistas, a julgar pelos estilos e carimbos de assinatura.

Caligrafia na escrita Yi juntamente com ideogramas chineses (caracteres menores, à esquerda)

Além das caligrafias, painéis impressos, roupas e um conjunto de chá mostravam a história, costumes e geografia do povo Yi e das províncias chinesas de YunnanGhizhou e Sichuan, onde habitam. Havia ainda um painel sobre o papel de Jinghua Wu na introdução do ensino bilíngue na região. 

Caracteres Yi divididos em grade
Trabalho sobre papel vermelho com desenho em dourado ao fundo

A exposição tem um título longo: Aprendizado dos conhecimentos da montanha para a construção curricular: uma exposição sobre a ecologia particular, a arte farmacêutica, músicas e costumes do Himalaia Hengduan Tibetano - Corredor Yi

Cartaz da 8ª edição. Misturei caligrafia, colagem, lettering, estêncil e até letraset que achei na gaveta

O 8º Café com Serifa vai juntar novamente calígrafos, letristas, type designers e interessados para o último encontro do ano. É neste sábado, 2/12, às 15h, no Tralharia, espaço que virou referência cultural no Centro de Florianópolis.

Se você frequenta desde a primeira edição ou está decidindo se vai pela primeira vez, dou cinco razões para aparecer lá (é jornalismo de listinha, eu sei, mas dizem que viraliza mais fácil).

1. Vai ter amigo secreto

Para manter a tradição de fim de ano, vamos fazer um amigo secreto de cartões postais. Você faz ou leva o seu (uns 10 x 15 cm) e sorteamos na hora. Vale impressão, caligrafia, lettering, ilustração, remexer no baú de recordações, o que der na telha. O tempo está curto para pensar em algo? A dupla do Ateliê Hodie vai estar lá vendendo postais e cartões.

2. Sempre tem assunto (e gente para conhecer)

Mônica de Souza e Bruno Abatti apresentam o Cafezinho, iniciativa que une design gráfico com o interesse da dupla por café

Apesar de ser época de fim de semestre, conclusão de projetos e compras de Natal, decidi fazer uma última edição, mesmo que seja em cima da hora. Afinal, temos assuntos: Santa Tipografia, oficinas, eventos e projetos novos

3. Você pode ganhar um brinde

Já é tradição. Temos conseguido sortear brindes em todas as edições, cortesia dos próprios participantes. Para este sábado, tem impressão fine art do cartaz (veja o vídeo abaixo) e materiais do Santa Tipografia.

4. Você fica informado

É no Café com Serifa que a comunidade fica sabendo das iniciativas de cada um, conspira para fazer eventos e divulga o que está acontecendo na cidade. Por ser aberto, qualquer um de nós pode apresentar algo (se me avisar com antecedência, ainda conseguimos divulgar).

5. Tralharia é um lugar bacana

Providencial união de café, cervejaria e antiquário, o Tralharia tem sido ponto de encontro de quem faz cultura em Florianópolis. Inaugurado há dois anos, o espaço também organiza exposições e eventos. 

O Café com Serifa, como sempre, é aberto, gratuito e informal. Nos vemos lá!

Serviço

Café com Serifa - 8ª edição
Encontro de type design, caligrafia, lettering e afins
Programação:
· Amigo secreto de cartões postais
· Sorteio de brindes
2 de dezembro de 2017, sábado, às 15h
Tralharia - Rua Nunes Machado, 104, Centro · Florianópolis, SC (mapa)
Entrada gratuita
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