Essays / tag / imprensa

Marcio Fontoura (esq.), que comanda o programa Ateliê. Conversa sobre caligrafia é amanhã, 29/8

Participo de uma entrevista na webrádio Desterro Cultural amanhã (terça, 29/8), às 21h. O apresentador Marcio Fontoura me convidou ao seu programa Ateliê para falar sobre caligrafia: como comecei, coisas que me inspiram, as oficinas na Faferia e o que mais surgir durante o bate-papo. 

Observador atento dos movimentos culturais de Florianópolis, Fontoura já entrevistou músicos, pintores, cineastas e outros artistas. Em junho deste ano, estive no estúdio com outros integrantes do Urban Sketchers Florianópolis, grupo que organiza saídas para desenhar pela cidade. 

 "Conversas sobre processos criativos em artes" é o lema do programa. Assim será!

Não é todo sábado que sua mãe avisa que você saiu no jornal. Abri o aplicativo do Notícias do Dia e lá estava a nota que destaca meu trabalho de caligrafia. O texto vem acompanhado da reprodução de uma obra da qual gosto muito, juntamente com retrato tirado por Carol Grilo.

Bem acompanhado ao lado do ready-made Cadeau, do dadaísta Man Ray

O artigo foi publicado na coluna Mosaico, raro espaço de crítica de artes visuais na imprensa catarinense, mantido pela jornalista e produtora cultural Néri Pedroso. Ela abre o texto citando meus pais, que hoje se dedicam à gravura

Filho de peixe, peixinho é. Ivan Jerônimo, cujos pais são os artistas Julia Iguti e Antônio Silva, dedica-se à caligrafia ocidental, com abordagens tradicionais e contemporâneas. 

Mais adiante, a jornalista escreve sobre a Faferia DNA de Arte, que representa trabalhos meus, e avisa da oficina Caligrafia Livre que dou lá. 

 A nota saiu no caderno Plural na edição de fim de semana de 22 e 23 de julho.

Capa da Revista Plural feita por Bruno Abatti, Jefferson Cortinove e Ivan Jerônimo

As letras são resultado do trabalho de profissionais que dominam type design, caligrafia e lettering. São eles os responsáveis pelas fontes usadas em seu celular, pela arte da mensagem da sua camiseta ou pelo menu atrás do balcão do seu café preferido. Exatamente por estarem em todo lugar, poucos param para refletir de onde elas vêm.

Por isso, a matéria especial de três paginas que saiu em dezembro na Revista Plural, caderno de cultura de fim de semana do jornal Notícias do Dia, pode ser considerado um feito. O gancho foi o terceira edição do Café com Serifa, encontro para interessados em letras que, entre outros objetivos, tenta tornar essas ocupações mais conhecidas.

Páginas centrais do caderno

Além de entrevistar um profissional de cada especialidade, a editora do caderno, Dariene Pasternak, sugeriu ainda uma criação coletiva para a capa. Como fui o primeiro contato, recomendei várias pessoas. No final, Bruno Abatti, designer e letrista, e Jefferson Cortinove, type designer e poeta, toparam participar.

Dois estudos iniciais. Versão da direita foi a escolhida

Sempre começo um projeto por esboços a lápis. Selecionei os mais promissores e fiz dois ensaios para enviar à editora, que escolheu a composição com os tipos sobre fundo vermelho. O prazo era apertado: aprovação do layout na sexta e entrega da arte definitiva na segunda, com o porém de que eu dava curso no sábado, Bruno participava de um evento de café e Cortinove estava viajando para lançar seu livro Roubadas de um Jardim. Na prática, foi quase tudo feito em um domingo.

O título tinha de ser decidido primeiro. A razão é que minha parte e a do Abatti são feitas à mão, dificultando mudar depois. ”Gente que faz letras”, a frase que foi juntamente com a proposta, emplacou. Isso simplificou bastante as coisas porque não teríamos de refazer o layout.

Lettering feito à mão de Bruno Abatti, pronto para ser escaneado

Bruno Abatti desenhou a palavra "Gente" a lápis e me enviou o arquivo escaneado, que se encaixou perfeitamente. Só preenchemos o miolo dos caracteres com branco para aumentar o destaque.

Jefferson Cortinove, que ficou com as palavras “que faz”, indicou várias de suas fontes. Fiquei entre a Hercílio e a Kareemah e, no fim, decidimos pela segunda. Para dar dinamismo à composição, usamos as versões fina e extra bold, ambas em itálico, e misturando caixa alta e baixa. A forma do Q maiúsculo foi decisiva na escolha. Escutei do próprio Cortinove no segundo Café com Serifa que a curva do traço inferior do Q maiúsculo foi uma das primeiras formas que ele desenhou, inspirado na forma de uma concha.

Caligrafia em estilo contemporâneo, resultado da combinação de materiais

Fiquei com a palavra "letras”, que escrevi com tinta nanquim diluída em água, papel rugoso e um tira-linhas da Dreaming Dogs, combinação que espirra bastante tinta. A ideia era refazê-la para a arte-final, mas a primeira versão me agradou e mantive-a assim. Só precisei escaneá-la com a qualidade adequada (no primeiro layout, usei uma foto).

Cuidado aos detalhes na montagem da contribuição de cada artista

Montei a composição no Affinity Photo, ajustando a posição das palavras e retocando os elementos que se sobrepunham. O objetivo foi dar unidade à mistura de tipos diferentes.

Cortinove representa os type designers na terceira página da matéria

Depois, respondemos às perguntas da repórter Karin Barros, responsável pelo texto, enquanto o fotógrafo Flávio Tin tirava os retratos. O resultado não podia ser melhor: capa mais três páginas, em tinta e em pixel.