Ivan Jerônimo

Caligrafia, lettering e artes visuais
 
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Neste ano que passou, figuras mascaradas apareceram aqui no prédio e levaram embora o resultado de quatro meses do meu trabalho.

Foi aí que começou a melhor parte de publicar meu livro 60 dias dentro de casa – Um diário ilustrado do isolamento: os reencontros.

Tive o prazer de entregá-lo pessoalmente a amigos de longa data, professores do colégio, colegas da faculdade, pessoal da natação, das artes e dos agitos da vida – os poucos que moram perto ou preferiram vir até meu bairro.

Porém, a maioria dos exemplares chegou às leitoras e leitores pelo correio. Vão ser lidos em dez Estados e três países. Fez falta uma sessão de autógrafos, mas não dá para querer que um livro produzido no meio de uma pandemia tenha um lançamento normal. Ao menos, tentei caprichar nas dedicatórias e na embalagem. 

Muitos compradores me escreveram mensagens com elogios e incentivos. Estão todas guardadas (e os que não gostaram pelo jeito não se manifestaram). 

Mais: a minha livraria preferida de Florianópolis, a Livros & Livros, em um gesto de apoio a autores e editoras independentes, começou a vender o título – e com destaque. Me contaram que um benfeitor misterioso passou um dia na loja e levou seis exemplares. 

A todas e todos, quer tenham recebido o livro pelo correio, quer em mãos, meu sincero obrigado. Com tantos títulos para se ler hoje em dia, é um privilégio a publicação de um anônimo iniciante ter recebido um par de horas da atenção de tanta gente. 

Meu livro 60 dias dentro de casa - Um diário ilustrado do isolamento acaba de sair. A edição traz os desenhos e textos que fiz entre março e maio deste ano. São 84 páginas com mais de quarenta obras, várias delas coloridas.

Onde comprar:

Na minha cabeça, haveria uma noite de autógrafos em um bar, muito provavelmente no Tralharia, cercado dos amigos que frequentam aquela parte do Centro de Florianópolis. Mas já completamos cinco meses com o vírus circulando, o Tralharia teve de fechar e, por isso, o livro vai chegar aos leitores sem evento presencial (mas vai rolar live).

Mostrando o livro na Hora Feliz Urban Sketchers Brasil

O caderno como registro

O surto mandou para o beleléu duas das minhas rotinas de desenho: as sessões com modelo vivo e os encontros do Urban Sketchers Florianópolis. Sem poder ir para a rua, comecei a desenhar pela casa, documentando coisas como a cozinha, que passou a ser usada todo dia, e o expediente no home office improvisado, realidade comum a muita gente nos últimos meses. 

Não é de hoje que tenho vontade de publicar meus desenhos. O isolamento, além de ter me dado mais tempo, virou o tema de fundo que amarra a produção dessa época que será lembrada por muitos anos.

Vista da sacada em um sábado à tarde virou a capa do livro

O tempo passa (com ou sem pandemia) 

Uma hora, vamos lembrar desse surto de Covid-19 como algo do passado. Enquanto isso, é preciso cuidado para não afundar em más notícias. Minha solução foi desenhar, atividade que tem o benefício duplo de fazer a atenção se concentrar numa única coisa e de fixar a memória. 

Confesso que, no início, fiquei receoso de bancar sozinho a impressão e todo o trabalho de criar o livro, mas resolvi que já era hora de investir em um projeto pessoal. Mesmo quem trabalha na chamada “indústria criativa” sabe que muitas vezes a criatividade que fala mais alto é a do chefe ou do cliente. Por isso, é importante criar espaços onde você faz o que bem entende. 

Múltiplas fontes 

Nos cinco ou seis cadernos que mantenho, contei mais de quarenta obras desse período, feitas com pastel seco, caneta tinteiro, tira-linhas, aquarela, técnicas digitais, entre outros. Montei uma tabela com dimensões, materiais e títulos, e anotei também as curtidas nas redes sociais (sem editor, isso me ajudaria caso precisasse deixar alguma de fora). 

Desenhos feitos na pandemia estão espalhados por vários sketchbooks

Vários textos que acompanham os desenhos já estavam publicados como legendas nos posts. Outros, editei ou escrevi do zero. 

Investimento

 Sem sangue frio para uma campanha de financiamento coletivo, nem paciência de esperar por editais, escolhi a autopublicação. Hoje, existem gráficas especializadas em tiragens pequenas, com qualidade comparável ao ofsete. 

Aproveitei ainda que sei tratar imagens e já fiz design de publicações, dois serviços que valorizam a edição (e que comeriam boa parte do orçamento se eu contratasse outros profissionais). 

O processo

Toda publicação deve ter um projeto, aconselha a experiência e as aulas na faculdade de Jornalismo. Planejar as páginas foi crucial para prever o tamanho do livro e estabelecer a sequência dos desenhos. Foi aí que me dei conta de que poderia organizá-los por temas, em vez de ordem cronológica. 

Sequência das páginas evita surpresas na diagramação

Na hora de tratar as imagens é que se vê como a ilustração digital facilita a vida até na edição: não é preciso escanear nem corrigir cores, brilho ou contraste, etapas inescapáveis para os originais em papel

O projeto gráfico e a diagramação correram em paralelo. Os títulos são em Futura Medium e o corpo do texto em ET Bembo. Os desenhos vão até o limite da folha (“sangrados”, no jargão das artes gráficas) para aproveitar todo o espaço. No design das páginas, recorri ao Elementos do estilo tipográfico, obra de referência de Robert Bringhurst. 

Planejamento da estrutura do livro inclui proporção da página, margens e quantidade de caracteres por linha

Imprimir uma tiragem por demanda é igual em qualquer gráfica convencional. Você envia os arquivos, eles lhe mandam uma prova e, se estiver tudo OK, imprimem o livro. Sempre fico ansioso antes de enviar algo para a gráfica, mas a qualidade da prova física me surpreendeu. É preciso um olho especializado para diferenciar do processo ofsete. Como esse primeiro lote se esgotou em menos de cinco dias, tomei coragem para encarar uma tiragem bem maior em uma gráfica convencional.

Vai ter sequência?

Por causa do título 60 dias dentro de casa, volta e meia alguém pergunta, ironicamente, quando sai o segundo volume, já que faz tempo que passamos de 120 dias. O trabalho do livro, entretanto, deixou a prática do desenho em segundo plano. Mas continuo produzindo e espero, embora sem muita esperança, que a pandemia acabe antes que eu acumule material para outro volume. 

Serviço

60 dias dentro de casa - Um diário Ilustrado do Isolamento
Ivan Jerônimo
84 páginas
17 ⨉ 24 cm
Edição do autor
Livro impressoLivros & Livros (online e na loja do Centro de Eventos da UFSC, em Florianópolis)
E-bookAmazon
Veja amostra

Autor conta história de doze manuscritos antigos, cobrindo período de mil anos

A caprichada versão brasileira do livro Manuscritos Notáveis, do inglês Christopher de Hamel, é para ser lida em cima da mesa. Suas quase 700 páginas dão ao volume de capa dura 4,5 cm de espessura e mais de um quilo.

Isso, porém, não é nada perto da presença física dos objetos dos quais o autor trata. Cada um dos doze capítulos é dedicado a um manuscrito que Hamel selecionou por sua importância histórica, raridade ou beleza. O maior deles mede meio metro de altura, 30 cm de espessura e 34 kg. Mesmo os menores estão longe de ser de bolso pelos nossos padrões atuais. Afinal, couro é mais grosso e pesa mais que papel.

O autor queria que o título fosse "entrevista com manuscritos" e logo se percebe por quê. À maneira de perfis jornalísticos, cada capítulo abre com a descrição de como foi arranjada a "entrevista", da permissão de manusear o volume (manuscritos raros costumam ter acesso restrito) à descrição das bibliotecas e museus na Europa e Estados Unidos onde ele repousa. Embora alguns deles estejam digitalizados e com acesso fácil nos sites das instituições, a intenção de Hamel foi oferecer a sensação de manuseá-los e o impacto da caligrafia e das ilustrações, chamadas de iluminuras.

Os estilos de caligrafia 

Os doze manuscritos reunidos no livro cobrem um milênio de história, começando no século 6. Não dá para documentar a evolução da caligrafia só pela dúzia de exemplares reunidos por Hamel, mas eles oferecem bons exemplos da diversidade de estilos em épocas e regiões diferentes. É uma perspectiva diferente dos manuais de caligrafia, que classificam os tipos de letras por períodos bem delimitados. Em se tratando de escrita à mão, nem tudo cai tão facilmente em categorias. A quem se interessa por caligrafia, sugiro acompanhar a leitura com uma obra de referência (a minha foi A Arte da Caligrafia, de David Harris, já esgotada). 

Caligrafia uncial no Evangelho de Santo Agostinho. Na época, não se separavam as palavras

Já no primeiro manuscrito, dos Evangelhos de Santo Agostinho (séc. 6), temos um exemplo de Uncial, sem os espaços entre as palavras que só surgiriam séculos depois. Ficamos sabendo que esse estilo, de letras grandes, não era bem visto por São Jerônimo, tradutor do texto reproduzido no evangelho, por desperdiçar espaço. 

Na Arateia de Lenden (séc.9), uma cópia de um tratado de astronomia ainda mais antigo, os escribas tentaram reproduzir o estilo de caligrafia original, em maiúsculas rústicas. Curiosamente, alguém se deu o trabalho de reescrever todos os textos nas margens em outra letra – a caligrafia gótica, mais legível na época. O leitor de hoje, porém, provavelmente acharia a versão original mais fácil de ler. Há manuscritos cuja caligrafia não se encontra facilmente nos manuais. É o caso das minúsculas visigóticas usada na Espanha e Portugal, derivada da cursiva romana (no manuscrito Beato de Morgan, séc. 10).

Página do Beato de Morgan com a rara minúscula visigótica. O estilo de iluminura tem similaridade com arte etíope

Linha de produção 

A ideia romântica de um escriba solitário, enclausurado num mosteiro, cai por terra logo no início. Embora obras mais antigas fossem realmente produzidas em locais religiosos, há livros feitos em oficinas especializadas, com equipes de escribas e iluminadores trabalhando em separado, muitas vezes com encomendas para diversos mosteiros. Sabe-se disso hoje comparando a caligrafia e, no caso das iluminuras, o traço. 

O leitor também percebe o trabalho colossal que era produzir um manuscrito, o que dá uma ideia de quanto deviam ser valiosos na época. A pele de um bezerro rende apenas duas folhas de pergaminho. Para o colossal Codex Amiatinus, do século 8, o autor calcula que foram necessários 515 animais. 

Cada livro, uma aventura 

Dificilmente as obras ficaram todos esses séculos no mesmo lugar. Venda, roubo, contrabando, herança e transferências foram os meios pelos quais eles trocaram de mãos. O Semideus de Visconti, por exemplo, foi surrupiado da França por um embaixador russo durante a Revolução Francesa. Acreditava-se que As Horas de Joana de Navarra havia sido tomado da família Rothschild pelos nazistas, mas o próprio autor descobriu documentos comprovando que os proprietários foram ressarcidos, o que fez a França pagar uma quantia à Alemanha para que o volume continuasse na biblioteca nacional. 

Perdas 

Iluminura incrivelmente detalhada do Livro de Kells, tesouro nacional da Irlanda

As idas e vindas das obras também causaram cicatrizes. É comum especialistas verificarem páginas suprimidas, muitas vezes para revenda a antiquários, embora também ocorram perdas em reencadernacões. Há casos, como o do Codex Amiatinus, em que foram recuperadas páginas soltas de uma outra versão do mesmo manuscrito. Há folhas que hoje podem estar decorando a parede de alguém que ignora seu valor. A Carmina Burana tem um volume separado, a Fragmenta Burana, só para páginas consideradas pertencentes ao livro original. 

Por questões práticas, um manuscrito muito grande pode ser dividido, como é o caso do Livro de Kells (séc. 8), tesouro irlandês que foi separado ainda no século 20 em quatro volumes, correspondentes a um evangelho cada. Assim, poderiam ser exibidos simultaneamente, já que os visitantes são proibidos de tocá-los.  

Título de Martina Flor é um dos mais completos sobre lettering disponíveis no Brasil

Durante cinco anos, A Arte da Caligrafia, de David Harris, reinou sozinho nas prateleiras das livrarias como única referência sobre escrever e desenhar letras. A partir de 2014, as editoras brasileiras se tocaram que caligrafia e lettering estavam em alta e lançaram outros livros. Os Segredos de Ouro do Lettering, da argentina residente em Berlim Martina Flor, é o mais completo desta nova leva.

A obra é destinada ao desenho de letras para design gráfico, mais especificamente para ilustração editorial e embalagens. A autora, porém, ensina o mais importante: o processo. Ela não dá modelos para o leitor copiar, como é comum a muitos livros sobre o assunto. Pelo contrário, indica onde buscar inspiração e detalha a estrutura das letras, mostrando as possíveis variações (altura, largura, contraste, ornamentos etc). "Dentro dos limites das formas básicas que podemos reconhecer como letras, as possibilidade de desenhá-las são infinitas", explica.

A partir das formas básicas das letras, autora explora as variações

Uma abordagem interessante é a técnica do papel manteiga. A artista faz várias versões, sobrepondo uma nova folha de papel manteiga sobre a versão anterior, copiando e corrigindo o que ela achar necessário.

A composição é um aspecto que muitas vezes define um bom trabalho, mas nem sempre é abordada por outros autores. Aqui, Martina sugere começar com miniaturas (desenhos pequenos) para se concentrar na distribuição da arte na página. Após definir esse layout inicial, trabalha com alinhamento e destaque de palavras, evitando composições monótonas.

Flor expõe o processo da própria capa do livro como exemplo

Lettering, caligrafia e design de tipos são três disciplinas distintas, mas com intersecções. Assim, trecho importante é reservado para os princípios da tipografia aplicados ao lettering: formas das letras, espaçamento, compensação óptica, entre outros. Como quem nos parece querer dizer que conhecer nomes é dominar uma disciplina, a autora disseca as partes de cada letra, como um manual de anatomia faz com o corpo humano. 

Embora não seja o tema do livro, a caligrafia ganhou capítulo próprio, suficiente para Flor transmitir os fundamentos e principais materiais, além de sugerir exercícios para dominar os estilos mais comuns. Aprender a manusear uma pena ou um pincel pode enriquecer um projeto de lettering ou permitir desenhar letras manuscritas com conhecimento de como a estrutura deriva do instrumento e da sua inclinação.

Capítulo sobre caligrafia traz materiais, técnicas e os principais tipos de letras

A vetorização é o último passo – ela detalha o processo de arte-finalizar um lettering no computador, transformando a arte em curvas manipuladas através de um software. A autora usa o Adobe Illustrator, mas qualquer outro software vetorial dá conta do recado (Affinity Designer, Corel Draw, Inkscape, Vectornator etc). Além da arte final (o processo de realmente redesenhar as letras usando vetores), ela dá exemplos para escolher cores e adicionar sombras e texturas. 

Embora não pretenda ser um manual de software, o capítulo de vetorização da arte é suficiente para aprender sobre o procedimento

Dentro do espírito de uma obra para quem quer transformar as letras em profissão, o capítulo final é dedicado ao mercado: como promover seu trabalho, passar orçamentos e lidar com clientes. 


Os Segredos de Ouro do Lettering - Design de letreiros, do esboço à arte final
Martina Flor
168 páginas, 21 x 24 cm
Editora Gustavo Gili, 2018

Retrospectiva é aquele tipo de exercício em que você relembra o que achou mais importantes mas quem lê, discorda. Mesmo assim, escrevo fatos interessantes que ocorreram em 2018, ao menos no campo da caligrafia e afins (já que na política e economia, convém poupar o fígado).

Mais oficinas

Participantes da sexta edição da oficina Caligrafia Livre, em fevereiro

Foram duas edições da oficina Caligrafia Livre na Faferia em 2018, ano em que dei menos cursos para me dedicar a outros projetos. Porém, sempre fico surpreso ao ver como um plano de aula se adapta aos participantes. É uma oficina em que os inscritos aprendem as bases dos três estilos que considero mais relevantes, além de testar instrumentos e ver dicas de composição. Se quiser se aventurar em meio a penas, pincéis e nanquim, em fevereiro tem nova edição.

Caligrafia na academia

Que tal trinta participantes em vez de dez? Foto: Mary Meürer

Tive a felicidade de receber um convite de Mary Meürer, professora do curso de Design da UFSC, para dar uma edição da oficina Caligrafia Livre aos estudantes da sua disciplina de tipografia. Confesso que fiquei meio nervoso. De uma só tacada, tinha o triplo de alunos e quase metade do tempo das oficinas da Faferia. A aula foi em setembro, na mesma universidade em que me formei há vinte anos.

Deixei os materiais tradicionais de lado e vimos que, mesmo com um instrumento improvisado como o hashi (palitinho japonês) chegamos a resultados criativos. Para isso, escrevi cinco modelos de letras e fui dando as dicas individualmente, tentando não interferir no estilo de cada um. No fim, o pessoal experimentou o pincel oriental, a pena quadrada e o tira-linhas (incluindo os do Dreaming Dogs). E ainda deu tempo de ver variações de composição, que eu sempre digo que fazem diferença. 

Encontros de letras

Pati Peccin apresenta o livro Arquipélago (em coautoria com Demétrio Panarotto) na 11ª edição do Café com Serifa

Em 2018 chegamos à 12ª edição do Café com Serifa, encontro de caligrafia, lettering e type design que organizo no Tralharia, no Centro de Florianópolis. No ano, foram quatro edições desse evento que nasceu para ser só um happy hour de quem trabalha com letras, mas que também virou um espaço para apresentar projetos. Tivemos caligrafia árabe, novas tipografias, experiências na Coreia do Sul, ilustração e fechamos o ano com nosso tradicional amigo-secreto de cartões postais. 

Homenagem merecida

Impressos e clichês produzidos da editora Noa Noa, de Cleber Teixeira

Às vezes precisa uma exposição para transmitir a ideia de uma obra – um conjunto de artefatos feitos com o mesmo propósito e atenção, coerente no tempo. A mostra Editora Noa Noa e Cleber Teixeira trouxe as publicações em tipografia e gravura do editor e poeta, falecido em 2013, complementada com as máquinas e instrumentos necessários para imprimi-las – impressoras tipográficas, caixas de tipos e matrizes. 

Analisando as obras, fica claro o cuidado na produção dos livros. Os autores e as cartas expostas revelam a quantidade de artistas, escritores e tradutores que publicou, gente de importância nacional. Mostram também como a casa dele foi espaço de conversas onde provavelmente começaram muitos projetos. A exposição ficou de setembro a outubro no Museu Histórico de Santa Catarina, no Palácio Cruz e Sousa. O documentário Cleber e a Máquina é uma boa introdução e pode ser visto online. Existe ainda um projeto para transformar a biblioteca de Teixeira em espaço público

Que venham mais livros 

Dois livros de caligrafia editados em 2018 (topo) se somaram à onda recente de títulos sobre o assunto

Demorou, mas as editoras brasileiras acordaram para as letras feitas à mão. Para quem só tinha o livro A Arte da Caligrafia, de David Harris, lançado em 2009 e já esgotado, foi bom ver a biblioteca crescer com os últimos lançamentos: 

Tenho alguns desses livros e pretendo publicar resenha dos mais recentes. 

Exposição de caligrafia Yi

Trabalho em exposição na UFSC

Em julho, uma exposição no meio de um congresso de antropologia na UFSC mostrava os costumes e as artes da etnia Yi, da China. Entre roupas, utensílios e painéis, havia um conjunto de obras de caligrafia, numa escrita que eu desconhecia. Mesmo procurando no Google, não achei muita informação sobre o estilo. Por isso, tirei fotos e escrevi um post

Mary Meürer (dir.): "Floripa precisava deste momento de conversa e troca de experiências"

Interessados no desenho das letras como profissão, objeto de estudo ou expressão visual têm encontro marcado nesta quarta-feira, 7/12, a partir das 18h. É a última edição do ano do Café com Serifa – evento bimestral que reúne type designers, calígrafos, letristas e interessados.

O lançamento do livro de poesias Roubadas de um Jardim, de Jefferson Cortinove, é destaque da programação. São obras em que parte do leitura vem do arranjo do texto na página. O autor cria as próprias fontes de letras usadas no livro, como a Leftheria e a Nautikka. “Na poesia de Jefferson Cortinove, sempre houve uma preocupação para além do aspecto visual. A palavra, aqui, é fundamental, mas não se restringe apenas à composição tipográfica, campo por onde o poeta também transita”, analisa o editor Sergio Chaves.

Capa do livro Roubadas de um Jardim, de Jefferson Cortinove, que será lançado no evento

Tipos em Florianópolis

A discussão sobre Florianópolis sediar um evento de tipografia ano que vem está na agenda do Café. Mary Meürer, professora de Tipografia do curso de Design da UFSC, mantém conversas com a organização do DiaTipo – conferência realizada em várias cidades do país desde 2008. O objetivo é avaliar se é possível fazer uma edição na ilha ou ainda criar um encontro similar.

Trabalhos da PARQUE Edições também serão apresentados ao público no Café com Serifa

A PARQUE Edições também aproveita a oportunidade para mostrar seu primeiro produto: a coleção de postais tipográficos Trash Songs Brasil Anos 90. As designers Babi Carvalho e Luiza Touco, e a produtora cultura Camila Petersen estão por trás da iniciativa, que nasceu da feira Parque Gráfico. “Utilizamos hand letterings ornamentados em contraponto com as letras bagaceiras de algumas das músicas que tanto marcaram a infância da nossa geração”, explica Petersen.

Interesses comuns

A ideia que motivou a criação do Café com Serifa foi reunir pessoas com interesses comuns, mas cujo trabalho individual e especializado não favorece as interações no mundo real. "Floripa precisava deste momento de conversa e troca de experiências para integrar mais as pessoas que se interessam pelo assunto", afirma Meürer.

Uma das inspirações foi o Bistecão Ilustrado, encontro em São Paulo que juntava ilustradores de diferentes estilos, dos novatos aos veteranos do mercado, e que criou uma comunidade que até hoje se mantém nas redes sociais. É este viés que motiva Cortinove a ir ao Café com Serifa: "você tem a possibilidade de conhecer pessoas de trabalhos semelhantes e se sente mais inspirado em produzir, além de trocar informações e conhecimentos", analisa.


Café com Serifa - 3ª edição - Encontro de type design, caligrafia, lettering e afins

7 de dezembro de 2016, quarta-feira, a partir das 18h
Coffee & Shop 18: rua Professor Acelon Pacheco da Costa, 64, loja 3 · Itacorubi, Florianópolis (mapa)
Programação:
  • Lançamento do livro Roubadas de um Jardim, do type designer Jefferson Cortinove, que estará à venda
  • Lançamento dos postais tipográficos da coleção Trash Songs Brasil Anos 90 da PARQUE Edições, também à venda
  • Conversa para realizar um encontro sobre tipografia em 2017 em Florianópolis
  • Sorteio de um exemplar do livro Roubadas de um Jardim (Jefferson Cortinove), de um pack com cinco cartões tipográficos da PARQUE Edições e de uma obra em caligrafia de Ivan Jerônimo

Entrada: gratuita
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Viaje en tiralíneas, de Silvia Cordero VegaNeste livreto de apenas 36 páginas, autora explora uso do instrumento conhecido em português como tira-linhas. Na foto, três modelos diferentes

Eu acredito que as leituras aparecem na hora certa. O livro Viaje en Tiralíneas (Viagem em Tira-linhas), da argentina Silvia Cordero Vega, foi uma delas. Como muitos participantes das minhas oficinas de caligrafia, eu guardava vários materiais comprados em viagens, alguns ainda fechados na embalagem. A razão é que eu não sabia como começar.

Achado

Esbarrei no livro em 2013 em uma papelaria de Buenos Aires chamada Papelera Palermo, hoje já fechada. Passeando entre papéis especiais e produtos assinados por designers, dois pequenos livros de caligrafia, da mesma autora, me chamaram a atenção. O primeiro era um apanhado do trabalho de vários artistas e o outro, um manual. Este foi o que levei porque me pareceu mais útil.

Páginas do livro viaje en tiralíneas, de Silvia Cordero VegaTipos de tira-linhas e exemplos de trabalhos

Minha vontade de estudar caligrafia ocidental na época esbarrava na falta de informações. Tinha medo de "começar errado", sem método. Mesmo as ocasionais palavras escritas à mão para alguns trabalhos de design gráfico não foram o suficiente para iniciar um hábito: eu adiava o início para quando tivesse tempo sobrando, os materiais certos e um espaço físico adequado. Hoje sei que essas condições raramente se alinham. O negócio é produzir com o que se tem em mãos.

Conteúdo

O livro é dedicado a um único instrumento chamado tira-linhas. Silvia Cordero mostra os vários tipos, ensina como improvisar uma versão caseira usando lata de alumínio – afinal, é um item difícil de achar – e traz exercícios e exemplos. Essa abordagem livre e sem preocupação com os estilos históricos foi o início das minhas primeiras experiências. Depois acabei encontrando outros manuais, mas devo à autora desse pequeno livreto de 36 páginas uma abordagem que sigo ainda hoje. É um bom ponto de partida.