É bom quando um artista famoso muda de estilo. Não são todos que têm coragem de se arriscar e não se acomodam com os elogios. Dave McKean, por exemplo, ficou famoso com quadrinhos como Asilo Arkham, Orquídea Negra ou as capas da série Sandman, ambos feitos com colagens e pinturas coloridas. Mas quando resolveu se aventurar em carreira solo, ou seja, escrever e desenhar, recorreu ao bom e velho nanquim na minissérie Cages. Troca semelhante se vê no álbum Estigmas (Conrad Editora), ilustrado pelo italiano Lorenzo Mattotti, que esteve em Belo Horizonte como convidado do 3º Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), em setembro de 2003.
Mattotti é um quadrinista pouco publicado no Brasil. Histórias curtas saíram na extinta revista Animal (números 11, 12, 14 e 16), e só. Para ler mais, tinha-se de recorrer a material estrangeiro. Quem tem trabalho dele em casa sabe que vale a pena o tempo gasto em sebo ou o dinheiro deixado na importadora.
Quadrinista e também ilustrador editorial e de publicidade, o artista ilustra suas HQs com pastel (aquele cruzamento entre o giz de cera e o giz de lousa). Seu domínio de cor e composição é raro mesmo entre os europeus, que têm um mercado para esse tipo de trabalho maior e mais antigo que os Estados Unidos. No álbum Fuochi (Fires, nos EUA), pintado sem esboços, há pelo menos um par de páginas inteiras com sequências de quadrinhos quase abstratos.
Estigmas, no entanto, é desenhado apenas com nanquim. Talvez acostumado à variedade de matizes e tons do pastel, o autor parece não ter se conformado com o preto e o branco. Enche a página de hachuras, às vezes preenchendo quase todo o espaço com traços que parecem descontrolados, e os tons que consegue com elas se comparam aos seus trabalhos coloridos. Em outras passagens, borrões dividem o mesmo quadrinho com personagens definidos por algumas poucas linhas. A sequência em que o personagem principal lê um livro de rezas, quase no final, é um dos pontos altos da arte.
Estigmas saiu na França em 1998, e conta a história de um sujeito, cujo nome nunca é citado, que acorda de um sonho com as tais feridas na mão que nunca cicatrizam. Sem vocação para santo ou monge, acaba tendo a vida, já meio miserável, arruinada pelas feridas: é despedido do bar onde trabalha, os vizinhos lhe importunam achando que é um santo e, por fim, perde o apartamento e acaba indo morar na rua. Cansado, sai de cidade em cidade para procurar trabalho no circo de um tio.
As diferenças com o trabalho usual de Mattotti não ficam apenas no desenho. Seus álbuns e histórias curtas, com roteiro próprio ou em parceria, são como histórias infantis mais adultas, com deuses, lugares imaginários e seres estranhos. Estigmas já é mais pé no chão, apesar do tom místico de alguns trechos. Escrita por Claudio Piersanti, a história lembra um pouco o trabalho de um outro Lourenço, o paulista Mutarelli, mas sem humor e um pouco mais otimista. Em comum, os tipos miseráveis, os cenários decadentes, os personagens cruéis e referências à igreja católica.
Esta foi a primeira vez que Mattotti e Piersanti trabalharam juntos. Depois disso, em 2000, publicaram na França o álbum Anonymes, com ilustrações de mulheres desenhadas por Mattotti com textos de Piersanti que, aliás, é romancista. Estigmas é sua primeira experiência com quadrinhos. Diferente do que a parceria entre um escritor e um quadrinista com currículo de ilustrador poderia resultar, Estigmas não é um livro ilustrado. A história realmente flui e, se dá vontade de fazer pausas, é para apreciar o desenho.
Se você for comprar o álbum, um aviso: leve somente se estiver plastificado e manuseie com cuidado. A capa vinca com facilidade.